Por que você não deveria dar açúcar e doces ao seu bebê?

 

Por Jacqueline Rodrigues

Açúcar para bebês é veneno. Eu sou contra, qualquer tipo de doce aos bebês e crianças menores de 3 anos! Sim, 3 anos ou até quanto mais os pais conseguirem livrar seu filho dessa tentação viciante. Falo de açúcar branco, de doces, bolos e tortas feitas com açúcares ou adoçantes, confeitaria em geral, além dos produtos e bebidas industrializadas como chocolates, doces enlatados e pré-prontos, refrigerantes, sorvetes, sucos de caixinha e qualquer outra bebida açucarada.

Eu não decidi ser contra ‘porque sim’, ou porque sou nutricionista e ‘nutricionistas são radicais’, ou qualquer outro rótulo (que não define a nós, nutricionistas). Essa é a minha opinião com base na experiência clínica, na vasta literatura, e inúmeros estudos que comprovam os benefícios de uma alimentação isenta de doces e guloseimas na primeira infância, assim como nos estudos que demonstram a associação entre uma alimentação rica em açúcares em idade prematura à incidência de tantas doenças crônicas e síndromes futuras.

child making food shopping at grocery store

O consumo de açúcares e doces por bebês e crianças, tanto no Brasil como no resto do mundo, tem crescido a cada ano e o poder viciante dessa substância no cérebro humano é cientificamente comprovado. Muitos estudos demonstram os prejuízos de desenvolvimento e o aumento de incidência de doenças crônicas e síndromes em crianças que tiveram alimentação rica em açúcares (e outros nutrientes em excesso como o sódio, gorduras de má qualidade, etc.) e consequências que se estendem até na vida adulta.

É POR ISSO, porque eu sou apaixonada em poder ajudar as pessoas a potencializarem seu bem-estar e qualidade de vida, que me sinto no dever de alertar e sugerir alternativas e estratégias para contornar essa tendência.

Eu entendo também que, como é estruturada a nossa sociedade hoje, manter as crianças longe de açúcares, doces e guloseimas é uma das partes mais difíceis no processo de educação alimentar. Parece ser uma luta contra o resto do mundo, às vezes até dentro de casa! Com um parente que pensa diferente. Mas não é impossível! Principalmente enquanto bebê, quando ele só come o que VOCÊ DÁ.

No tocante às festas infantis por exemplo, com crianças maiores, é difícil conceber uma festa sem guloseimas. As opções saudáveis são raras e muitas vezes são até desdenhadas pelos pais por não serem as mais atrativas. É difícil mudar a cultura, e os pais que propõem alternativas saudáveis são muitas vezes rotulados de chatos radicais.

Mas com amor, carinho, estratégias e planejamento as boas orientações são facilmente mantidas dentro de qualquer família. Aliás, com esses quatro ingredientes citados, qualquer coisa é fácil de implementar e manter, certo?

Bom, por que dizer não aos açúcares e doces para bebês e crianças?
Você aceita uma orientação quando a entende, então eis o que você deve saber:

1 ● Sabe-se que todos nós nascemos com o paladar mais portado para o sabor doce, então são os outros sabores que ‘precisam’ ser mais estimulados. E fazê-lo é uma grande vantagem já que centenas de frutas, verduras e vegetais em geral – cheios de nutrientes importantes – são menos doces e igualmente deliciosos em seus sabores.

2 ● Açúcar É TOTALMENTE DISPENSÁVEL NA DIETA DE CRIANÇAS. Não, seu filho não vai passar vontade, não vai ficar com água na boca, não vai faltar nada para ele nutricionalmente se você não der. Ele não precisa de calorias vazias. Talvez ele vá pedir e até fazer manhas se vir outros comendo na frente dele, mas não porque ele precisa daquilo (ninguém precisa do que não conhece), mas então por que ele quer comer o que o outro está comendo? Chama-se curiosidade! A necessidade (também adquirida) de comer doces é do adulto, não do bebê. Ele não sabe o que é açúcar, ele não sabe que o suco fica mais doce com açúcar nem que a pera fica suculenta com leite condensado em cima. Isso é o adulto que sabe. Ele precisa somente das frutas e alimentos que já vêm com seu doce natural, vitaminas, minerais e carboidratos na medida certa para a sua energia e desenvolvimento.

3 ● A introdução de doces, sobretudo industrializados, influencia o paladar do bebê, intensificando-o para esse sabor e levando-o a posteriormente rejeitar tudo aquilo que não é tão doce quanto. A partir dali outras frutas , que têm seu sabor doce ideal quando combinado às fibras e vitaminas, já não serão mais tão apetitosas quanto o tal ‘pedacinho de bolo de chocolate com recheio’. Os açúcares e doces mascaram os sabores originais dos alimentos, e o bebê tende a recusá-los quando for oferecido posteriormente na sua forma natural, cascateando também para esses problemas abaixo.

4 ● A introdução precoce de doces dificulta o trabalho da mamãe no futuro, na aceitação e introdução de variedades de novos alimentos e sabores. Como o paladar já foi levemente (ou intensamente) alterado, a criança vai sempre em busca daquele sabor. Podem então ocorrer episódios onde a criança não quer comer o que você dá. Você desiste pelo cansaço, mas não quer deixá-la sem comer nada, então você cede ao docinho, porque isso ela aceita, e o ciclo vicioso está formado.

5 ● Você acaba achando que ele tem ‘problema’ com tal ou tal alimento, que ele não gosta mesmo, porque ele diz que não gosta. Na verdade seu filho só está aprendendo a ser ‘seletivo’ da maneira errada e acaba não oferecendo mais. E assim uma série de outros alimentos vão entrando para essa lista dos ‘não oferecidos’, e quando você vê a criança já não come quase nada, tem uma alimentação super limitada.

6 ● Existe uma fase entre o primeiro e o terceiro ano em que o bebê pode ter seu apetite diminuído, comem menos e usam dessa seletividade para comer só o que querem. Se até então ele não foi ‘apresentado’ aos doces, é provável que esse período seja mais tranquilo, pois o pouco que ele come é saudável.

7 ● Não é só uma questão de formação de paladar e comportamento. Esses ingredientes em excesso podem ser gatilhos para problemas cognitivos, alterações metabólicas e inflamações, como: obesidade, câncer, diabetes, etc. Um vasto número de pesquisas no mundo todo já demonstrou a associação dessas substâncias ao risco aumentado de doenças crônicas e síndromes tanto na primeira infância quanto na vida adulta.

Se nada disso foi o caso do seu primeiro filho ou de outros bebês/crianças que você conhece, ótimo! Existem sim crianças que se alimentam super bem, felizmente! 

Mas é bom alertar, com base nas ocorrências clínicas, que não são poucas as que apresentam problemas. O número é cada vez mais crescente, graças à massiva industrialização, o abando ao hábito de cozinhar, o pouco tempo dedicado às refeições, enfim… o tal mundo globalizado. Programas de televisão falam disso a toda hora, especialistas, cientistas, profissionais alertam, mas o marketing das empresas e os compromissos correm a passos mais largos.

Ok, o que fazer para prevenir e contornar essa tendência?

1 ● Priorizar, incentivar e, sobretudo ‘dar o exemplo’ no consumo de alimentos in natura, obviamente desde a introdução alimentar até os 3 anos de idade ou quanto mais você conseguir. Assim você vai reduzir e limitar a alimentação do seu bebê ao que é saudável e necessário ao desenvolvimento dele, reduzindo o consumo de calorias vazias, aditivos químicos, corantes, etc. e priorizando vitaminas, minerais, fibras e substâncias precursoras para um ótimo crescimento.

2 ● Para considerar algum produto na alimentação do seu filho, leia SEMPRE os rótulos para verificar se estão presentes açúcares, aditivos, corantes. Se estiverem na lista, exclua. Se forem os primeiros 4 ingredientes, exclua. Pois os ingredientes são descritos obrigatoriamente em ordem de quantidade. O primeiro está em maior quantidade no produto e vai decrescendo.

3 ● Não tenha em casa …e não será consumido! Nem pelos pais, nem pelo irmãozinho, e nem cairão na tentação de dar ao bebê. Nessa fase ele está provando de tudo e a família é o exemplo que ele vai seguir. Ele vai aprender o que você e a família ensinar!

4 ● Fora de casa, em passeios e festas, levem uma marmitinha com aquilo que é ideal para o seu bebê. Peçam aos parentes, amigos e conhecidos, com carinho e sorriso no rosto, que não deem ou ofereçam nada ao seu bebê, pois você já trouxe a comidinha dele, e evite de consumir as guloseimas na frente dele. Lembre-se isso não é uma tática, deve ser o estilo de vida da família.

5 ● Não mantenham um hábito constante de sair para comer com bebês e crianças. O paladar e hábitos alimentares são melhor construídos dentro de casa, com o que você oferece com amor e carinho. Fora de casa o que os restaurantes, lanchonetes e fast-food querem é VENDER qualquer tipo de comida para o seu filho.

6 ● Se seu bebê/criança passa um tempo com avós, cuidadores, a melhor forma de abordar a conversa sobre a alimentação é também conscientizá-los. Conversar e mostrar essas orientações, incluindo filmes e documentários que falam sobre o assunto e que são preciosos para o conhecimento de todos!

7 ● Escolher festas, passeios, lugares onde você possa oferecer alternativas mais saudáveis às suas crianças, fazendo a sua ‘seleção’ de lugares mais adequados. Pouco a pouco a sua escolha se transformará em tendência. Assim, locais e empresas terão que se basear nesta forma para tentar vender seus produtos e serviços mais saudáveis. Isso felizmente já começou a acontecer, a passos de formigas, saudáveis.

Renata

<p>ODONTOPEDIATRA</p> <p>Graduação Faculdade de Odontologia do Planalto Central (FOPLAC) Brasília DF – 2010<br /> Especialização Odontopediatria na Faculdade São Leopoldo Mandic (SLM – Campinas)<br /> Pós Graduação: Curso de capacitação em Odontologia intrauterina e da Primeira infância – UNESP<br /> Curso de Odontologia na Primeira Infância-Clínica de bebês – USP São Paulo<br /> Aperfeiçoamento em Endodontia SLM SP<br /> Aperfeiçoamento em Ortodontia e Ortopedia na Clínica de Odontopediatria – SLM SP<br /> Curso Intensivo de Odontologia para Bebês – Universidade Estadual de Londrina UEL<br /> Aspectos Nutricionais no Atendimento Odontopediátrico – USP</p>